sexta-feira, 27 de novembro de 2009

The empty threats of little lord

Gostava de repetir as palavras até à exaustão, ultrapassar o limiar em que significam algo, chegar às letras - ao som - ocas e vazias. Encontrava nesta manobra um refúgio da porcaria que lhe ia acontecendo, menos onerosa que o black out de uns copos de aguardente, ou de uma mão-cheia de hipnóticos. (À conta disso, tinha já ido parar ao hospital por diversas vezes, levou com tubos pela garganta abaixo, foi encafuado numa enfermaria com gente maluca... - não, isso nunca mais!)
Naquela hora incomodava-o a inutilidade que se sentia - e que era, vistas bem as coisas, que nem precisavam sequer de uma visão tão acurada, bem verdadeira; era mais do que inútil - era uma coisa invisível mas que custava e gastava ao planeta recursos tão necessários à sobrevivência das diversas espécies e da sua própria, num jogo de parasitanço infindável que, inevitavelmente, teria de findar. Este raciocínio era pesado por demais; contentava-se em sentir-se inútil, sem querer aprofundar a razão da coisa. Aliás, já nem se sentia inútil, de tanto ter repetido a palavra, as sílabas, os fonemas, o som... oco. O vácuo inundava-o e dava-lhe um bem-estar como não sentia há muito - como já não se lembrava de alguma vez ter sentido. Andava sem rumo pelas ruas da cidade, vendo mas não olhando, fazia-lhe impressão qualquer coisa que não sabia definir - seria a chuva miudinha? o vento que acordava por vezes? os pedintes a esticar a mão? os putos ranhosos que se julgavam gente? - enfim, vagueava em transe, perdido nas ruas e ruelas da cidade e da sua cabecita vazia de sentimentos e significados. Nunca lhe tinha acontecido chegar tão longe... estava mesmo em risco de se perder indefinidamente dentro de si, o nada que o preenchia era demasiado aliciante; chegavam-lhe ainda umas alucinações - memórias da vida que tinha (e que estaria prestes a deixar): o duplex no bairro in, decorado por quem percebia do assunto - enfim, um pequeno palacete, o automóvel que não era topo de gama mas pronto, a namorada que ia e vinha e ia e vinha, enquanto outras vinham e iam, o trabalho que lhe fazia cair todos os meses uma quantidade generosa de €€ - trabalho que fazia só porque era suposto, o health club que já fora terapêutico, os sítios que visitara, as putas que fodera,os jantares com a família nas alturas que tinham de ser...
"Inútil, inútil, inútil, inútil, inútil, inútil, iiinnnuuutttiiilllllll, --- --- --- --- --- --- ---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------"

Pronto. Estava feito. Abandonara de vez o mundo. Mas, porra!, não teve o mundo a sorte de ele ter morrido... não, inútil mas parasita, num qualquer sanatório, até ao final dos seus dias, que se adivinhavam longos.


The empty threats of little lord - Sunset Rubdown

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segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Uprising

... mas ao contrário. Esta anedonia insiste em arrastar-me. *GRITO*
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domingo, 18 de outubro de 2009

All the pretty faces



"P'ó caralho!", ouve-se ressoar em todo o prédio, um grito que teria sido sussurro não quisesse ele ter uma saída em grande. Tudo tinha sido já desconversado, o sentido que nunca existira materializou-se de vez, humores trocados, carinhos esgotados, sorrisos falsos cansado de o serem.
A porta fecha-se com um estrondo. De repente, o silêncio. "P'ó caralho!", ela ainda ouve estas palavras, ter-lhe-iam ficado grudadas algures entre o ouvido e o córtex temporal, repetiam-se incessantemente. Queria chorar, gritar, desesperar, desistir... mas não conseguia. "P'ó caralho" já devia ter ele ido há muito, p'ó caralho que lhe ature as merdas, que lhe faça as vontades, que lhe lamba as botas e o ego. "P'ó caralho" vai e muito bem.
A chuva que caía ganhou o brilho que há muito ela já não via, a vontade de ir banhar-se nas gotas prateadas era apenas abafada pela chama do cigarro que lentamente consumia. "P'ó caralho", nem mais, um sorriso crescia-lhe dentro do peito, os pés finalmente seguros em terra firme, janelas e portas abertas deixavam entrar a chuva, sentia-se inundada de uma luz libertadora, sentia-se leve, todas as forças do mundo nela convergiam, nada a podia impedir de um "reset", de um final feliz à sua medida, finalmente a libertação e a vitória.



Um sobressalto, abre os olhos estremunhada, sente a seu lado o calor insuportável de um corpo que já há muito a repugna.


Levanta-se, veste-se, puxa um cigarro e fecha a porta silenciosamente. Um murmúrio escapa-se por entre os lábios sorridentes. "P'ó caralho!".


All the pretty faces - The Killers

domingo, 4 de outubro de 2009

Hard 2B the bastard


Where am i located in the hot.vs.crazy line? Way above... the what?

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terça-feira, 15 de setembro de 2009

Moonlight serenade


Soube realmente o que é estar sozinha rodeada de tanta gente. Às voltas no escuro, tentando não tropeçar, ouvindo uma música longínqua que inquieta a alma e arrepia o corpo, vendo a luz, vendo a saída, querendo, necessitando, DESESPERADAMENTE, de escapar.

O local, tão familiar quanto desconhecido, zero, não pertenço aqui, hoje não, agora não, por favor deixai-me ir... deixai-me sair rumo à neblina escura, deixai-me ser envolvida por ela, sentir o ar frio e húmido entrar no meu corpo, sentir todos os pêlos erguerem-se tentando proteger-se da temperatura que parece baixa... mas não, não está frio, o ar que me rodeia e no qual me sumo - me quero sumir, desesperadamente! - é a brisa suave da libertação, sabe a asas.

Ninguém, ninguém repara, ninguém olha, ninguém liga, ninguém sente o grito rouco e cansado de uma voz, quero sair, tanta gente e... nada... sozinha, estou sozinha, ninguém me acode, tenho de ser eu, por mim. Quero dormir, estou cansada, mas não, não me posso render, tenho de sair daqui.


Finalmente, uma luz. Um toque e estás quase livre. Atravessas, com um sorriso envergonhado e aliviado, os corredores luminosos.

Para a próxima já sei. Tenho de sair pela porta da urgência.
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domingo, 13 de setembro de 2009

Praying for a riot


Onde andas, coração malvado? Não voes... não fujas... Deixa-te flutuar... o acaso levar-te-á aonde te esperam.
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quinta-feira, 13 de agosto de 2009

I'm going slightly mad

Os blackouts dão cabo de mim. Is it real, is it not?
Agradecia um glimpse de qualquer coisa.
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