Ora vamos lá a isto. Respirar fundo, arregaçar mangas e esfregar as mãos, dar o jeito na cadeira. Vamos lá pôr o bicho a funcionar.
Seria o meio da noite. Abre os olhos - acordado já estava, não chegara a adormecer sequer - e, sem acender a luz, sai da cama e vagueia pela casa. Vagueia, enfim, dá uns passos, que os poucos metros quadrados que possui não lhe permitem grandes passeios. Meio da noite e sono nem vê-lo. Zangaram-se de vez, ele e o sono, não dás ao corpo o que ele quer e ele paga-te na mesma moeda, queres descansar?, mais vale dares um murro na cabeça e chocalhar as meninges que de outra maneira não consegues. Tinha tanto para dar em troca, para (con)ceder, que não soube por onde começar. Não se conseguiu decidir. Dez e vinte e mil impulsos o assolavam e exigiam ser ouvidos, mas não sabia a qual dar asas. Deixara de o saber... Perdeu, algures, a vontade em ser mais, em ser o máximo que conseguia e podia e queria. Perdeu, algures, a vontade de fazer. Perdeu, algures, a vontade de ser. O corpo reclama o que antes sabia seu, o ir mais além, o voar... reclama, grita, exige, mas ele nada pode fazer. Algures... Deitou-se novamente, o corpo gritava mas ele não ouvia, o corpo exigia mas ele não compreendia, perdeu algures a linha que o permitia sentir-se. Sabe apenas que não consegue dormir. Dar para receber - tão simples como isso. Dar o que te pedem... se deixaste de o saber fazer, quem to poderá ensinar, quem te poderá consertar a ligação que deixaste apodrecer?
Shut up i am dreaming - Sunset Rubdown
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domingo, 13 de março de 2011
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
Fuck you - an ode to no one
domingo, 28 de março de 2010
Dance of the sugar plum fairy
Breathe in, breathe out. Breathe in, breath out. In... out.
O corpo dela bailava suavemente ao sabor das inspirações que a arrastavam para cima, das expirações que a empurravam para baixo. Sentia-se, segundo a segundo, cada vez mais. Tomava consciência de si, imersa naquela água com odor a baunilha. Submersa, ouvia cada bater do seu coração, e, lá ao fundo, uma lista interminável de acordes e notas musicais que se sucediam de uma forma sublime. Não era grande fã de música clássica, mas lá se decidiu experimentar. E que melhor altura do que um encontro com si mesma? A luz tremelicante e fraca das velas teimava em alumiar a escuridão em que se sentia; essa escuridão, esse desassossego não eram acalmados pelo toque da água quente, pelo cheiro dos sais, pelo ar denso que nela entrava.
"Como sossegar? Como continuar? Onde estão as forças?"
Pontos de interrogação inundavam-lhe a mente, juntos com aquela música que amava pela primeira vez, numa dança neuronal inebriante que poderia ter apenas um desfecho... olhava as suas veias, dilatadas, sentia o sangue quente correr dentro de si, sentia a vibração da música, sentia-se no meio de nada, sentia-se no meio de tudo, sentia-se, queria sentir-se mais. A música em crescendo e o sangue quente a fugir dela, a música sempre mais alta e com mais força, alimentar-se-ia do néctar que escorria pela mão dela? O aço frio e cortante jazia no chão, molhado de água, de lágrimas e de sangue.
Breathe in, breathe out, breathe in, breathe...
Calou-se a música quando o corpo, pálido e sereno, se deixou descansar. De vez.
Dance of the sugar plum fairy - Tchaikovsky
terça-feira, 9 de março de 2010
Super massive black hole
Três horas que deveriam ter sido três dias. Listas e mais listas com dez, vinte, cem linhas, cem números, cem nomes, cem vidas. Um computador, duas mãos, duas cabeças e clicks, muitos clicks. Raios partam os clicks, falhas um e puff!, o trabalho que fizeste, bem, durante o ano, de nada vale.
E abre o programa, e vai à ficha do rastreio, e vê a data, oh carago, passaram dois anos e um dia entre os exames, já não conta... menos uma... o trabalho está bem feito, o cancro está afastado por ora, a senhora (que é um número...), é saudável e esperemos que assim continue, estou cá para isso, para ajudar e ensinar a viver o melhor possível, a evitar as mazelas que sabemos poderem ser evitadas, a descobrir cedo aquelas que sabemos que aparecem (mais frequentemente do que "de vez em quando") e a atacá-las pela raiz, a tratar e minimizar os estragos que algumas, invariavelmente, causam, a optimizar a qualidade de vida e a saúde de quem a nós recorre.
Pois. Tudo fazemos para ser bons. Aceito (e é inegável) que avaliem aquilo que eu faço, como faço, quão bem faço, as falhas que tenho, os erros que cometo. Aceito, porque é fundamental para melhorar o meu desempenho. Agora, não aceito, e revolta-me, provoca-me náuseas cá mesmo no fundinho, que me avaliem cegamente, critérios rígidos quando a ciência o não é, porque dois anos são iguais a dois anos e dois dias, porque a consulta do senhor com tensão alta estava marcada mas ele faltou, ou veio só no início do ano seguinte, porque a senhora com diabetes fez o raio da análise a dois de janeiro e não a 31 de dezembro, porque a senhora que "não cumpriu o rastreio do cancro do colo do útero" afinal já não tem útero, pois é... porque a senhora que não faz mamografias há sei lá eu quanto tempo afinal já não tem mamas...
A imposição de uma máquina "cega" que nos avalia tem de, necessariamente, nos fornecer instrumentos que nos permitam dizer "isto não está feito porque...", não pode assumir instantaneamente que "aquilo não está feito e ponto final, temos pena" - ou não, que as máquinas não têm sentimentos, e muito menos os têm os senhores que por trás delas estão.
Perdemos tempo, demasiado tempo, demasiada energia a lutar contra estas merdas. A tentar fazer sempre o melhor - que nunca o é, se és bom tens de ser óptimo, se fazes 100, ai tens de fazer 150 pra próxima! É cansativo. Perdemos-nos algures no caminho. Eu, pelo menos, perco-me. Entre as listas, os nomes, os monitores, as letras, os códigos, os clicks. E a pessoa de que devo cuidar? Bom, desde que tenha todos os clicks nos milhentos sítios certos, ok... Mas confesso que, entre tanto click e "desclick", entre tanto vai e vem, por vezes me esqueço dela. A pessoa passa a número, a estatística, facilmente - demasiado facilmente. Onde está a essência da Medicina? Longe, muito longe disto, julgo.
Primum non nocere... A eles, que precisam de nós; e a nós, que precisamos de estar bem (ou menos mal) para deles cuidarmos.
(Tirem-me deste filme!!!!)
Super massive black hole - Muse
E abre o programa, e vai à ficha do rastreio, e vê a data, oh carago, passaram dois anos e um dia entre os exames, já não conta... menos uma... o trabalho está bem feito, o cancro está afastado por ora, a senhora (que é um número...), é saudável e esperemos que assim continue, estou cá para isso, para ajudar e ensinar a viver o melhor possível, a evitar as mazelas que sabemos poderem ser evitadas, a descobrir cedo aquelas que sabemos que aparecem (mais frequentemente do que "de vez em quando") e a atacá-las pela raiz, a tratar e minimizar os estragos que algumas, invariavelmente, causam, a optimizar a qualidade de vida e a saúde de quem a nós recorre.
Pois. Tudo fazemos para ser bons. Aceito (e é inegável) que avaliem aquilo que eu faço, como faço, quão bem faço, as falhas que tenho, os erros que cometo. Aceito, porque é fundamental para melhorar o meu desempenho. Agora, não aceito, e revolta-me, provoca-me náuseas cá mesmo no fundinho, que me avaliem cegamente, critérios rígidos quando a ciência o não é, porque dois anos são iguais a dois anos e dois dias, porque a consulta do senhor com tensão alta estava marcada mas ele faltou, ou veio só no início do ano seguinte, porque a senhora com diabetes fez o raio da análise a dois de janeiro e não a 31 de dezembro, porque a senhora que "não cumpriu o rastreio do cancro do colo do útero" afinal já não tem útero, pois é... porque a senhora que não faz mamografias há sei lá eu quanto tempo afinal já não tem mamas...
A imposição de uma máquina "cega" que nos avalia tem de, necessariamente, nos fornecer instrumentos que nos permitam dizer "isto não está feito porque...", não pode assumir instantaneamente que "aquilo não está feito e ponto final, temos pena" - ou não, que as máquinas não têm sentimentos, e muito menos os têm os senhores que por trás delas estão.
Perdemos tempo, demasiado tempo, demasiada energia a lutar contra estas merdas. A tentar fazer sempre o melhor - que nunca o é, se és bom tens de ser óptimo, se fazes 100, ai tens de fazer 150 pra próxima! É cansativo. Perdemos-nos algures no caminho. Eu, pelo menos, perco-me. Entre as listas, os nomes, os monitores, as letras, os códigos, os clicks. E a pessoa de que devo cuidar? Bom, desde que tenha todos os clicks nos milhentos sítios certos, ok... Mas confesso que, entre tanto click e "desclick", entre tanto vai e vem, por vezes me esqueço dela. A pessoa passa a número, a estatística, facilmente - demasiado facilmente. Onde está a essência da Medicina? Longe, muito longe disto, julgo.
Primum non nocere... A eles, que precisam de nós; e a nós, que precisamos de estar bem (ou menos mal) para deles cuidarmos.
(Tirem-me deste filme!!!!)
Super massive black hole - Muse
domingo, 21 de fevereiro de 2010
Fake plastic trees II

Às vezes é o que lhe apetece ser, é o que se sente, é o que é. Um vazio imenso dentro de um metro quadrado e pico de pele e outros epitélios. O sangue que dessa pele brota não traz consigo dor alguma - que dor julgas ter?, que pretendes sentir com novas cicatrizes?
[O passado não pode ser um fardo... se o não foi então, jamais o poderá ser, não penses que podes carregar o que já foi e nunca tiveste, mas apenas julgaste, ou quiseste, ter.]
Fake plastic trees - Radiohead
domingo, 14 de fevereiro de 2010
Right on time
Lembro-me sempre disto quando passo por uma bomba de gasoil... Uma viagem ao passado, tão presente.
http://arrozdemerda.blogspot.com/2008/06/cmon-tenho-pena-mas.html
Right on time - Red Hot Chili Peppers
http://arrozdemerda.blogspot.com/2008/06/cmon-tenho-pena-mas.html
Right on time - Red Hot Chili Peppers
Fake plastic trees
Chega, por favor, chega. Não vês que me magoas, que me matas aos poucos? Chega. Não posso mais com os teus ideais, com as tuas fantasias, com as tuas incertezas... enquanto finges viver esvais-te, és uma singularidade que suga o ar que respiro, o calor que me vai mantendo viva. Chega, pára. Não me enganes mais. Não me sufoques. Não me tapes a voz, não me escondas os olhos. Deixa-me ser eu, de uma vez por todas. Por mim e por ti, por nós. Deixa-me aceitar-me, o que sou, rocha assente num banco de areia ou grão de areia no fundo do mar, sou as duas coisas, deixa-me ver e sentir isso, deixa-me flutuar ao meu sabor, não posso mais com a dor que te preenche, com o vazio que sentes aí dentro. Não és isso, és muito, muito mais. A dor nem sabes de onde vem, deixa-a partir, não a queiras prender. Deixa-me aceitar-me, rosa ou espinho, rosa e espinho, és assim, sou assim, e assim seremos. Chega de massacres, de perpetuar feridas que te fizeste e já sararam, pensas apenas que ainda te afligem o corpo, mas olha, já nem cicatrizes tens.
Chega. Deixa-me. Ou me matas de uma vez, ou me deixas ir. E olha que agora não me apetece morrer.
Fake plastic trees - Radiohead
Chega. Deixa-me. Ou me matas de uma vez, ou me deixas ir. E olha que agora não me apetece morrer.
Fake plastic trees - Radiohead
quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
Pioneer to the falls

Acordara já cansada. O primeiro choro, rouco, mal se ouvira; nem depois de umas sacudidelas suaves a criatura parecia arrebitar. Enfezadita, pouco mamava, pouco queria, reclamava de quando em vez por um pouco de comida. Tanto passava despercebida que a própria mãe se esquecia dela.
Apesar de tudo e de ir contra todas as expectativas (que eram nenhumas) a criatura crescia, sempre na sombra, sem incomodar o mundo que parecia não reparar nela, podem as borboletas provocar furacões com um simples bater de asas, mas a presença dela nem aquecia nem arrefecia a terra sobre a qual caminhava. Era uma sombra de si própria, voz muda, talvez tivera sido feita à imagem e semelhança do divino que diziam habitar em todo o lado. Nada esperavam dela; para todos os efeitos, nem sequer existia - apenas uma nódoa mais que manchava a superfície do mundo. Por cá andou tempos infinitos, sempre sombra, sempre encolhida, ela esquecida da vida e a morte dela esquecida; nascera já cansada, acordara de mão dada com a morte que tardava em vir, em resgatá-la daquela vida inerte, sonsa, parada, charco de lama imutável. Mas quando se lembrou, a morte, de pôr um ponto final ao que uma vida? tinha sido... ah, nunca se ouvira som tão horrendo, que varreu oceanos e continentes, arrepiou cobras e lagartos e aterrorizou todas as criaturas da terra; era como se, desde que nascera, tivesse guardado dentro de si tudo, toda a vida, todos os sons, palavras, gemidos, sussuros, TUDO, para tudo libertar no momento em que, cansada como sempre estivera, se findara. Nesse dia, nem as borboletas nem os elefantes causaram furacões.
Pioneer to the falls - Interpol
sábado, 23 de janeiro de 2010
Silent void

Uma, duas, três. Três almofadas. A primeira, a segunda e a terceira. Variável ordinal não sabe por que escala, se pela cronologia da compra, se pela frequência do uso. Dedicava-se, à laia de brincadeira, ao mundo das variáveis, da investigação - umas coisitas de nada, afirmava para si, um passatempo, uma paixão por descobrir. Tinha, assim, tendência a classificar as coisas da vida, a categorizá-las, variáveis infinitas dependentes ou independentes - as primeiras sabia que existiam, vergadas sabe-se lá por que forças; das segundas duvidava ("variável" independente nem a morte o é, tanto pode o filho do vizinho, rapaz borbulhento a iniciar os pulos hormonais, como o pai, velho moribundo que expira os últimos laivos de ar que ainda moram nos pulmões cancerosos, morrer a qualquer altura, talvez vá o filho antes do pai, não tenha cuidado ao atravessar a rua).
Três almofadas, três casas, três camas, três corpos, o dela e os deles. Sabiam - ou pensavam - disputar a mesma mulher, cada um disparando os seus encantos; tentavam torná-la variável dependente do mundo deles. Acabava por ser um jogo de escondidas, hoje com um, amanhã com o outro, depois sabe-se lá o que lhe irá apetecer. Não era movida pelo amor, tinha excluído essa variável da sua vida. Era a curiosidade, o desafio, o quê de animal que era (cem por cento?), o jogo de cintura, a habilidade, a balança entre duas vidas.
Pensavam disputá-la, pensavam conhecê-la, pensavam tê-la. Ela ria-se destas certezas infundadas, construídas do nada, dava-lhe gozo manipular - sem o querer, lá no fundo - os "corações" daquelas duas almas. A ela bastava-lhe o silêncio, a esquizofrenia cega do "amor" encarregava-se do resto da alucinação que os fazia viver.
Conhecer, ninguém a conhecia. Se havia variável que podia controlar era o seu ser, os seus olhos, a sua essência. Conhecê-la? Ninguém. Tê-la? Apenas por breves momentos.
"Hoje tu, amanhã tu também, depois o outro, depois... depois o quê? por quê? PARA QUÊ?". Percebeu que ela era a única variável independente no mundo. Levou consigo as almofadas e fechou, com cuidado, as portas atrás de si.
[Esta epifania, ela não a aguentou. Foi-se antes do pai e do filho do vizinho.]
Silent void - David Fonseca
terça-feira, 12 de janeiro de 2010
Butterflies and hurricanes

Não estava a par das últimas teorias acerca do nascimento do universo, mas sempre gostara da do Big Bang - ou, como dirão os entendidos, do "small schhhhhh", já que no nada não existe o som e "a partícula" original seria pequenina, big bang só mesmo para soar a coisa importante e que, a ter existido, o foi de facto. Fascinava-a a ideia de ser uma montagem de infinitas coisas que já viajaram biliões de biliões de km, que já foram estrelas vivas e mortas, que foram água, pedra, lava, ar, que foram bicharocos que não chegaram aos dias de hoje, átomos e outras miudezas de seres vivos, átomos e corações de seres não-vivos (como os asteróides que flutuam no vazio, como a pedra que chuta na calçada). Tudo isto a fazia sentir imensamente importante - tinha a certeza que era única no mundo, irrepetível, insubstituível, apesar de tudo o que dela fazia parte ter sido já usado por milhares de vidas e outras coisas não-tão-vivas, desde sempre, desde o início - desde o small schhhhhhhhhhhhh. Não tinha medo de desaparecer, pois tudo o que era seria, sabiamente, reutilizado; reencarnaria certamente noutros corpos, os átomos de oxigénio que possui seriam respirados por outros, faria parte do ar, seria nuvem, seria chuva, seria fogo, seria água, seria larva, seria leão, seria cacto, seria rosa, seria espinho, seria sal, seria lágrima, seria madeira, seria diamante.
Sabia-se eterna. E eternamente dançaria ao sabor das forças que, há biliões de milénios se libertaram e fugiram e andaram soltas até que, por escassas nano-fracções de segundo, convergiram para juntar todos os átomos e coisas mais pequenas ainda que a faziam, que a "eram", a ela, singularidade neste universo imenso, única, irrepetível, eterna.
(Inquietava-a não saber de que partículas era feita a alma... Inquietações que ficarão pairando no ar, até qualquer outra hora)
Butterflies and hurricanes - Muse
segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
Letting the cables sleep
sábado, 2 de janeiro de 2010
Kicking like a sleep twitch

Keep spinning around yourself... where the hell are you expecting to fall? Nothing turns faster than you, in a heart beat every little thing you take for granted vanishes... leaving you in the exact same place, with the exact same emptiness that ever ran through your veins. Just you... full of nothing.
Papillon - Editors
domingo, 6 de dezembro de 2009
domingo, 29 de novembro de 2009
This wind, temptation

"Bem, 'tá visto que tens de pôr um carimbo na testa... É burra, ou quê?"
Pois. Não sabia. Não sabia mesmo. Sempre fora bem sucedido no bailado da sedução. Uns olhos do tamanho do mundo que pescavam quem neles tropeçasse, um sorriso malandro, umas piadas inocentes... inevitavelmente arrastava a presa consigo, deixando as ossadas para trás após obter o desejado. Não se prendia, não tinha paciência para isso, não lhe mereciam o empenho nem o tempo.
Mas esta... esta tinha algo de... diferente. Não conseguia fazer com que se rendesse. Incomodava-o, a sensação de uma conquista falhada. O jogo tornara-se obsessão, quase guerra, tinha de se provar a si mesmo. Os outros que se lixassem. A gaja tinha de ser dele. A obsessão crescera, pensava apenas no próximo passo, no próximo trunfo a jogar.
Não, nada funcionava.
A obsessão passara a desespero, a impotência.
"És um cabrão! Apaixonaste-te pela gaja!"
Sim, sentia-o. Queria a gaja. As ossadas não seriam deixadas ao abandono. Dele, para sempre dele.
This wind, temptation - David Fonseca
sexta-feira, 27 de novembro de 2009
The empty threats of little lord
Gostava de repetir as palavras até à exaustão, ultrapassar o limiar em que significam algo, chegar às letras - ao som - ocas e vazias. Encontrava nesta manobra um refúgio da porcaria que lhe ia acontecendo, menos onerosa que o black out de uns copos de aguardente, ou de uma mão-cheia de hipnóticos. (À conta disso, tinha já ido parar ao hospital por diversas vezes, levou com tubos pela garganta abaixo, foi encafuado numa enfermaria com gente maluca... - não, isso nunca mais!)
Naquela hora incomodava-o a inutilidade que se sentia - e que era, vistas bem as coisas, que nem precisavam sequer de uma visão tão acurada, bem verdadeira; era mais do que inútil - era uma coisa invisível mas que custava e gastava ao planeta recursos tão necessários à sobrevivência das diversas espécies e da sua própria, num jogo de parasitanço infindável que, inevitavelmente, teria de findar. Este raciocínio era pesado por demais; contentava-se em sentir-se inútil, sem querer aprofundar a razão da coisa. Aliás, já nem se sentia inútil, de tanto ter repetido a palavra, as sílabas, os fonemas, o som... oco. O vácuo inundava-o e dava-lhe um bem-estar como não sentia há muito - como já não se lembrava de alguma vez ter sentido. Andava sem rumo pelas ruas da cidade, vendo mas não olhando, fazia-lhe impressão qualquer coisa que não sabia definir - seria a chuva miudinha? o vento que acordava por vezes? os pedintes a esticar a mão? os putos ranhosos que se julgavam gente? - enfim, vagueava em transe, perdido nas ruas e ruelas da cidade e da sua cabecita vazia de sentimentos e significados. Nunca lhe tinha acontecido chegar tão longe... estava mesmo em risco de se perder indefinidamente dentro de si, o nada que o preenchia era demasiado aliciante; chegavam-lhe ainda umas alucinações - memórias da vida que tinha (e que estaria prestes a deixar): o duplex no bairro in, decorado por quem percebia do assunto - enfim, um pequeno palacete, o automóvel que não era topo de gama mas pronto, a namorada que ia e vinha e ia e vinha, enquanto outras vinham e iam, o trabalho que lhe fazia cair todos os meses uma quantidade generosa de €€ - trabalho que fazia só porque era suposto, o health club que já fora terapêutico, os sítios que visitara, as putas que fodera,os jantares com a família nas alturas que tinham de ser...
"Inútil, inútil, inútil, inútil, inútil, inútil, iiinnnuuutttiiilllllll, --- --- --- --- --- --- ---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------"
Pronto. Estava feito. Abandonara de vez o mundo. Mas, porra!, não teve o mundo a sorte de ele ter morrido... não, inútil mas parasita, num qualquer sanatório, até ao final dos seus dias, que se adivinhavam longos.
The empty threats of little lord - Sunset Rubdown
.
Naquela hora incomodava-o a inutilidade que se sentia - e que era, vistas bem as coisas, que nem precisavam sequer de uma visão tão acurada, bem verdadeira; era mais do que inútil - era uma coisa invisível mas que custava e gastava ao planeta recursos tão necessários à sobrevivência das diversas espécies e da sua própria, num jogo de parasitanço infindável que, inevitavelmente, teria de findar. Este raciocínio era pesado por demais; contentava-se em sentir-se inútil, sem querer aprofundar a razão da coisa. Aliás, já nem se sentia inútil, de tanto ter repetido a palavra, as sílabas, os fonemas, o som... oco. O vácuo inundava-o e dava-lhe um bem-estar como não sentia há muito - como já não se lembrava de alguma vez ter sentido. Andava sem rumo pelas ruas da cidade, vendo mas não olhando, fazia-lhe impressão qualquer coisa que não sabia definir - seria a chuva miudinha? o vento que acordava por vezes? os pedintes a esticar a mão? os putos ranhosos que se julgavam gente? - enfim, vagueava em transe, perdido nas ruas e ruelas da cidade e da sua cabecita vazia de sentimentos e significados. Nunca lhe tinha acontecido chegar tão longe... estava mesmo em risco de se perder indefinidamente dentro de si, o nada que o preenchia era demasiado aliciante; chegavam-lhe ainda umas alucinações - memórias da vida que tinha (e que estaria prestes a deixar): o duplex no bairro in, decorado por quem percebia do assunto - enfim, um pequeno palacete, o automóvel que não era topo de gama mas pronto, a namorada que ia e vinha e ia e vinha, enquanto outras vinham e iam, o trabalho que lhe fazia cair todos os meses uma quantidade generosa de €€ - trabalho que fazia só porque era suposto, o health club que já fora terapêutico, os sítios que visitara, as putas que fodera,os jantares com a família nas alturas que tinham de ser...
"Inútil, inútil, inútil, inútil, inútil, inútil, iiinnnuuutttiiilllllll, --- --- --- --- --- --- ---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------"
Pronto. Estava feito. Abandonara de vez o mundo. Mas, porra!, não teve o mundo a sorte de ele ter morrido... não, inútil mas parasita, num qualquer sanatório, até ao final dos seus dias, que se adivinhavam longos.
The empty threats of little lord - Sunset Rubdown
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